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Entrevistas

Francisco Rosa e Edna Barros

24/02/2010 - Nova fábrica de chips pode diminuir o déficit da indústria

No Brasil, a indústria de semicondutores é praticamente restrita a um pequeno grupo de empresas montadoras, fato que tem ocasionado déficits na balança comercial. Nesse sentido, existem várias discussões e estudos sobre formas de aumentar a internalização das atividades desse setor no País, além do debate recente sobre a inauguração da fábrica do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec/MCT) de circuitos integrados, em Porto Alegre (RS), no último dia 05.

 

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) investiu R$ 400 milhões na construção da fábrica, que será a primeira a fabricar chips na América Latina. A iniciativa dá ao setor de microeletrônica do País um novo impulso, pois a produção de chips deverá criar um ambiente para a instalação de outras fábricas para atender a uma demanda que deve ser crescente. Uma unidade, por exemplo, será construída em São Leopoldo, cidade próxima à capital gaúcha, para encapsular os chips. A empresa pública federal já tem um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (Design Center) com a atuação de engenheiros qualificados e, agora, passa a ter condições de produzir inovações em volume e escala comercial. Em entrevista, Francisco Rosa, diretor da Área de Componentes da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), e Edna Barros, coordenadora do curso de engenharia da computação do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), falaram sobre o atual cenário da indústria de semicondutores no Brasil e o impulso que a nova fábrica de chips trará ao setor.

Qual o atual estágio de desenvolvimento da indústria eletrônica nacional e o que muda com a implantação da primeira fábrica de circuitos integrados da América Latina?

Francisco Rosa: A indústria eletrônica no Brasil caracteriza-se por ser, essencialmente, uma indústria montadora. Embora seja diversificada em termos de produção, padece de baixo valor agregado, pois temos uma indústria de componentes pequena. Para que se tenha uma ideia clara, o faturamento do segmento de componentes em 2009 representou apenas 7,7% do faturamento total da indústria elétrica e eletrônica. Assim, qualquer investimento nessa área se revela uma contribuição fundamental para a agregação de valor e maior equilíbrio da balança comercial do setor.

Edna Barros: Estudos recentes mostram que a indústria eletrônica nacional, com poucas exceções, não participa do mercado de semicondutores como ator, limitando-se à importação de kits utilizados na montagem de sistemas. Os efeitos deste cenário na balança comercial são graves, produzindo um déficit crescente que, cada vez mais, está afetando a competitividade do setor, uma vez que reduz o potencial de inovação da indústria eletrônica como um todo. Em um cenário cada vez mais globalizado e competitivo, a indústria nacional de eletrônica tem de apresentar diferenciais para poder participar do mesmo. Estes diferenciais incluem redução de preços, bem como o fornecimento de produtos e serviços com características inovadoras e de qualidade. Ciente dos problemas existentes, o governo brasileiro tem realizado várias ações no sentido de se estabelecer um ecossistema de indústrias de semicondutores que suporte o desenvolvimento de sistemas eletrônicos de qualidade, com preços competitivos e que incluam inovação. A implantação da fábrica, associada a todas as outras ações que estão sendo realizadas, representa um passo de extrema importância para o estabelecimento deste ecossistema no sentido de tornar nossa indústria mais competitiva.

Qual a importância desta fábrica para inserir o Brasil no mercado global como produtor de semicondutores?

Francisco Rosa: Uma indústria de componentes (ativos e passivos) tem de ser, por excelência, exportadora. Para sobreviver, a indústria precisa de escala elevada já que a margem de contribuição unitária é muito baixa. Por isso, precisa vender volumes expressivos, direcionando-se tanto para o mercado interno como para o externo. O problema maior do Ceitec é que, enquanto indústria, ele ainda está muito preso a um horizonte apenas doméstico. O rebanho bovino brasileiro atinge, segundo dados mais recentes, cerca de mais de 200 milhões de cabeças, o que abre um promissor caminho para o seu principal produto, o chamado "chip do boi". Entretanto, pela própria dinâmica deste segmento, muito focado em inovação e desenvolvimento tecnológico, é preciso que o Ceitec alargue os seus horizontes e consiga penetrar em novos mercados. O intercâmbio de "ideias" e de conhecimentos, decorrente desse processo, é fundamental para que se consolide uma indústria de componentes estratégicos no Brasil.

Edna Barros: Como mencionei anteriormente, o Brasil não é um ator neste mercado, e acredito que ainda teremos um longo caminho pela frente para participar do mercado global de semicondutores. No entanto, este primeiro passo é de extrema importância, pois mostra a existência de uma competência estabelecida para um determinado segmento de mercado interno ainda pouco explorado, que deverá atrair outros tipos de indústria de semicondutores para a instalação de fábricas no Brasil, por exemplo, back-end. A construção deste ecossistema deverá induzir a formação de mais recursos humanos qualificados e permitirá a atração de outras empresas e o aumento da atuação em outros mercados. Acredito que a fábrica é importante para quebrar um círculo vicioso existente há anos: não havia recursos humanos, pois não havia mercado para projetos, que por sua vez não fomentava mais recursos humanos. Com a implantação da fábrica, espero que tenhamos um círculo virtuoso a partir de agora, pois mesmo iniciando com uma tecnologia mais antiga e atuando em um nicho de aplicação específica, esperamos ter demanda para novos sistemas e aplicações que poderão demandar o projeto e fabricação de componentes com tecnologias mais recentes, que através de parcerias poderão ser incorporadas ao sistema existente.

O Brasil dispõe de mão de obra para atuar no mercado de microeletrônica?

Francisco Rosa: Atualmente, sabemos das dificuldades que o País enfrenta com respeito à essa questão. Além de insuficiente - basta observar o número de engenheiros que se formam anualmente e a necessidade que se projeta para o futuro -, há um problema de baixa qualificação dessa mão de obra. Inegavelmente, diversos esforços têm sido feitos tanto pelo governo federal como pelos estaduais. A grande vantagem é que esse é um processo que poderá se autoalimentar. Havendo demanda, leia-se mercado, mais jovens despertarão o interesse de atuar no setor e, portanto, novos profissionais vão se habilitar para isto. Basta examinar o que vem ocorrendo hoje em dia com o segmento de Petróleo e Gás. De todo modo, iniciativas como a do Ceitec são alavancadoras desse processo.

Edna Barros: A criação da empresa Ceitec S.A é uma das ações que vêm sendo realizadas na área de microeletrônica. Um programa de bolsas de mestrado e doutorado na área vem sendo suportado desde 2003, bem como o programa CI-Brasil que suporta um total de 18 Centros de Projetos em várias regiões do Brasil e dois centros de treinamentos que já formou mais de 340 projetistas desde 2008. Adicionalmente, o programa Brazil-IP proporciona formação em projetos de circuitos integrados a alunos de graduação e hoje inclui 18 instituições de ensino e pesquisa brasileiras (em todas as regiões do Brasil) e mais de 120 alunos de graduação que estão desenvolvendo 18 circuitos integrados de mercado usando ferramentas comerciais. Todas estas ações estão sendo suportadas pelo CNPq e MCT. Todo este esforço tem garantido mão de obra qualificada, no entanto, mais recursos humanos necessitam ser formados, uma vez que ainda temos um déficit de profissionais.

Segundo a OCDE, nos países desenvolvidos, o setor eletrônico responde por 12% do PIB. No Brasil, a indústria eletrônica é responsável por apenas 1,7% do PIB. Com esta iniciativa, esse número pode aumentar?

Francisco Rosa: Apenas com a proposição do Ceitec é muito difícil. Para robustecer o setor elétrico e eletrônico no País, a Abinee desenvolveu um trabalho, denominado "A Indústria Elétrica e Eletrônica em 2020: Uma Estratégia de Desenvolvimento" (disponível no site da entidade) em que aponta várias medidas que precisam ser adotadas para que o setor ganhe musculatura na estrutura industrial brasileira. A meta é que o faturamento do setor atinja 7% do PIB em 2020 (hoje é da ordem de 4,5% do PIB) e que consolidem as cadeias produtivas, principalmente em TIC, para que tenhamos não apenas um setor eletrônico maior, mas que tenha elevado valor adicionado e capacidade de incorporar e desenvolver tecnologias próprias no sentido da convergência tecnológica.

Edna Barros: O crescimento da participação da indústria eletrônica no PIB acontecerá na medida em que haja um aumento substancial das exportações sem significar um aumento maior ainda de importações. A capacidade de produção e de componentes eletrônicos associada à produção de propriedade intelectual e de inovação são fatores chaves para o crescimento da indústria eletrônica. A fábrica do Ceitec permitirá a produção de componentes eletrônicos a um baixo custo e grande volume, o que vai ser muito importante para determinados segmentos de mercado interno. No entanto, outras ações que vêm sendo realizadas também são de vital importância para o crescimento da indústria de eletrônica, pois permite a produção de tecnologia e de propriedade intelectual no País. Entre estas ações destaca-se o programa CI-Brasil de suporte aos vários centros de projeto e também as ações na área de formação de recursos humanos (Centros de Treinamento e Programa Brazil-IP). Complementando estas ações existem vários incentivos que estão sendo dados pelo governo federal para que o desenvolvimento e fabricação de componentes eletrônicos sejam realizados no Brasil. Um exemplo é o Padis, que permite a redução de impostos em produtos que tenham componentes eletrônicos projetados no País. Adicionalmente, editais para financiamento pela Finep com contrapartida da empresa e editais de subvenção estão apoiando cada vez mais projetos de semicondutores. Recentemente, a estruturação de redes agregando equipes com competências complementares através do Sibratec deverá ser mais um incentivo ao desenvolvimento de projetos de componentes ou sistemas eletrônicos que colaborem para a inovação da indústria nacional.

 

(Fonte: Revista Tic Mercado - 24/02/2010)

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