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Entrevistas

Antônio Britto

04/02/2013 - “O Brasil não consegue transformar conhecimento em riqueza com a inovação”

Na presidência da entidade que representa as indústrias farmacêuticas no Brasil - a Interfarma -, Antônio Britto insiste em tocar a tecla da inovação. O desenvolvimento de pesquisa tem sido uma das principais bandeiras defendidas pela entidade, que constrói um largo trabalho para incentivar o Brasil a abraçar essa causa. Ele acha que o país está dando alguns passos na direção correta, mas ainda tem um longo caminho a percorrer. Britto elogia decisões como a tomada recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que deve reduzir os prazos para análises sobre a realização de pesquisas clínicas - necessárias para o desenvolvimento de novos medicamentos. "Hoje um ponto que podemos e devemos atacar para melhorar a atratividade é a questão dos prazos, que estão espremidos pela demanda", declarou Dirceu Barbano, presidente da Anvisa, em entrevista.

A postura de Britto no comando da Interfarma vem carregada de uma história política que o Brasil conhece desde que o jornalista foi o porta-voz da Presidência da República e contou aos brasileiros que Tancredo Neves, o primeiro presidente civil depois de um longo período de governo militar, havia falecido. Britto foi também deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Rio Grande do Sul, seu estado natal. Antes de chegar à Interfarma, atuou como executivo em grandes empresas brasileiras, como a Azaléia e a Claro.

É essa experiência que lhe traz clareza para inserir a indústria farmacêutica no contexto socioeconômico brasileiro. E, a partir desse ponto de vista, cobrar de governos, empresas e universidades ações coordenadas em prol do desenvolvimento da pesquisa e da inovação. "É preciso que a gente festeje os acertos que teve como país e tenha a humildade de entender que o que serviu para resolver os problemas do térreo talvez não sirva para resolver os problemas do oitavo andar. No térreo a gente não precisava de elevador. Mas para chegar às doenças mais complexas, qual será o elevador? Fica muito difícil imaginar que a gente queira resolver os problemas desse Brasil novo, de população que envelhece, com as mesmas armas que a gente resolveu a desidratação e a diarreia", diz o presidente da Interfarma. "O Brasil melhorou muito em matéria de saúde. Nós temos felizmente uma redução extraordinária da mortalidade infantil, aumento da longevidade, redução de doenças contagiosas - dengues à parte -, temos um programa de imunização super bem sucedido, outro grande acerto com os agentes de família e êxitos fantásticos como no caso da aids. Só que, enquanto o Brasil dava certo nisso tudo, o país ia mudando e ficando mais complexo também em doenças", afirma, lembrando que as chamadas doenças modernas estão tomando o primeiro lugar nas causas de internação e morte. Segundo ele, o desafio da saúde no Brasil - e de toda a indústria relacionada à ela - está em dar respostas tanto às questões básicas quanto às complexas, "porque é absolutamente vergonhoso que ainda morra gente de doenças do século passado".

Como o senhor avalia, hoje, o cenário brasileiro para o desenvolvimento da inovação e o incentivo à pesquisa?

Antônio Britto: O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, em um artigo, fez uma avaliação com a qual eu concordo completamente. Ele diz que o Brasil foi extremamente competente nos últimos anos em desenvolver e ampliar a geração de conhecimento científico. Nós temos mais doutores do que nunca, estamos publicando mais artigos científicos do que nunca. Mas, na avaliação do ministro, o Brasil não tem conseguido transformar o conhecimento que gera em riqueza através da inovação. Quando a gente examina a questão da inovação no Brasil, é preciso afastar o que não é problema: nós não temos falta de gente competente, não temos falta de ilhas de excelência onde se detêm um conhecimento de igual nível ao que se há de melhor no mundo.

Em que ponto está o problema?

Britto: O problema está no fato de que em qualquer país do mundo em que a inovação deu certo, dos Estados Unidos à Coreia, há uma conexão que funciona muito bem entre a universidade gerando conhecimento, as empresas aplicando esse conhecimento e o governo estimulando esse circuito. No Brasil, a imagem que eu faço é de que nós não temos um continente de inovação - com todo mundo em cima do mesmo território -, temos ilhas e essas ilhas não se relacionam muito bem. As universidades e as empresas ainda estão muito distantes. A universidade, de modo geral, ainda tem aversão a querer transformar o conhecimento em riqueza. E as empresas, também de modo geral, não gostam de correr riscos. Só que inovação, acima de tudo, é correr riscos.

 

Qual outro grande empecilho?

 

Britto: A outra questão é a do ambiente regulatório para a inovação. Pobre de quem queira inovar no Brasil. Primeiro porque tem uma lista de dez ou doze áreas do governo cada um com suas exigências e burocracias. Segundo porque inovar no Brasil parece pecado. O pesquisador brasileiro tem que pagar imposto de importação para comprar material de pesquisa. O prazo para autorização da pesquisa é no mínimo o dobro ou o triplo do praticado em outros países. Então, os dois grandes inimigos da inovação são: o ambiente regulatório hostil e a falta de uma maior conexão universidades empresas-governo.

 

Como é possível começar a resolver cada um deles?

 

Britto: A solução passa primeiro por uma questão política. Como o Brasil sempre foi um grande exportador e contou com um belo mercado interno, a inovação se restringiu a ser vista como uma espécie de opção. Acontece que o mundo mudou e, se o Brasil quiser ser realmente grande, a inovação tem que deixar de ser uma opção para ser considerada uma necessidade. Enquanto o Brasil não assumir a inovação como uma necessidade, a inovação vai continuar como o ioga - todo mundo é a favor, mas pouca gente pratica. Se essa questão política for resolvida, teremos uma tarefa mais fácil que será derrubar as barreiras burocráticas.

 

Mas o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação tem defendido que este é o ano da inovação no Brasil e que a presidente Dilma Rousseff está de acordo com essa decisão. Como isso pode ser visto em termos práticos?

 

Britto: Temos alguns fatos positivos neste momento. O principal deles é a compreensão e a convicção da presidente Dilma sobre a necessidade da inovação. Isso é muito positivo. E um exemplo dessa obstinação pessoal dela é o programa Ciência sem Fronteiras. Mas,nem a conhecida obstinação da presidente foi capaz, ainda, de limpar os obstáculos burocráticos. Se observarmos o número de agentes governamentais envolvidos em inovação e as exigências absurdas que são feitas, somos obrigados a lamentar que, embora o governo tenha as melhores intenções, o primeiro dever de casa que seria limpar a própria casa da burocracia não foi cumprido.

 

E a sociedade também poderia fazer sua parte?

 

Britto: Essa participação é fundamental porque a conexão academia-empresas- governo não depende só do governo. O governo tem feito a sua parte colocando recursos. Sempre falta dinheiro para a inovação, mas eu acho que o dinheiro hoje não é o maior problema. O maior problema é a mentalidade das empresas e das universidades brasileiras, que não assumem o risco da inovação ou tampouco uma atitude mais firme em favor da inovação. As empresas não o fazem porque temem o risco e as universidades porque ainda vivem uma crise existencial para descobrir se universidade tem que só gerar conhecimento básico ou também pode gerar conhecimento aplicado. A própria legislação não estimula que a academia vá atrás da produção e da patente. O resultado é que a gente produz doutores como nunca e eles continuam, na maioria dos casos, muito mais voltados à produção de artigos científicos do que de inovação.

 

Por isso o Brasil continua muito atrás de seus parceiros dos Brics quando o assunto é patente?

 

Britto: A patente é uma mera consequência. Por que os EUA geram muita patente? Porque geram muita inovação. Por que geram inovação? Porque têm um ambiente formado para isso. Se pegarmos um país como a Coreia, a quem o Brasil não deve absolutamente nada, vemos que esse país tomou a decisão de ser importante em pesquisa clínica. Em pouco mais de 10 anos, a Irlanda alcançou um posto bem à frente do Brasil em pesquisa clínica. Trata-se de uma ilha pequena, mas que é superavitária em medicamentos. A Irlanda assumiu a inovação como um esporte nacional. Ela criou as condições para essa mudança.

 

Em quanto tempo conseguiram isso?

 

Britto: O esforço da Irlanda é de 25 ou 30 anos.

 

Apesar desses problemas com a burocracia, o Brasil está inserido nesse movimento global da indústria farmacêutica, se pensarmos no país como destino para investimentos em pesquisa?

 

Britto: O Brasil é um dos mercados que mais crescem no mundo e o interesse pelo Brasil no campo farmacêutico continua muito grande. Diferentemente do que ocorre em outros setores, o que mais assusta o investidor estrangeiro nesta área éuma coisa fácil de resolver, que é a burocracia. Do ponto de vista de como o exterior nos vê, temos um excelente conjunto de leis que beneficiam o investimento no setor farmacêutico, temos um mercado extraordinário, uma ciência que avança muito. Internamente temos avanços importantes em saúde básica, mas também um desafio cada vez maior de atender a demanda para diagnóstico e tratamento de doenças crônicas - o que exige custos cada vez mais elevados. Isso seguramente vai levar o Brasil a repensar a estrutura de acesso a medicamentos. Outro desafio é que o gasto público em saúde está absolutamente abaixo do necessário e da média mundial. E fica difícil imaginar como é que a gente vai resolver o primeiro problema-do acesso a medicamentos -, sem resolver este segundo. Outra grande questão é: se nós quisermos dar boas respostas e acesso a diagnósticos de doenças cada vez mais complexas, vamos ter que nos dedicar mais à inovação.

 

Neste sentido, o que se espera para 2013? A recente decisão da Anvisa em relação à pesquisa clínica é um avanço?

 

Britto: Nós tivemos boas e más notícias no Brasil sobre pesquisa clínica em2012.Aboa notícia veio da Anvisa, que mudou os processos pelos quais autoriza pesquisa clínica no Brasil. Essas novas regras vão, num curto espaço de tempo, favorecer a pesquisa clínica. Só que, infelizmente, ao mesmo tempo emque a Anvisa andava para frente, o Conselho Nacional de Saúde decidiu andar para o lado.

 

Sobre a mesma questão?

 

Britto: Sobre um outro lado dessa questão. A pesquisa clínica no Brasil depende de dois sistemas de autorização, um é o da Anvisa, que andou para frente.Aoutra autorização, que também é fundamental, é a que vem do Conselho Nacional de Ética na Pesquisa (Conep). Depois de quase dois anos de trabalho, com uma consulta pública que recebeu mais de 1.800 contribuições, a vontade do Ministério da Saúde de fazer uma modernização nas regras acabou não sendo apoiada pelo Conselho Nacional de Saúde, que segue a decisão do Conep.

 

Isso é reversível? Qual prejuízo ou atraso esse tipo de decisão pode representar para a pesquisa no Brasil?

 

Britto: Eu não sei se é reversível ou não, mas sei o que vai acontecer se não for revertido: o Brasil vai perder centenas de estudos clínicos. Um levantamento que nós fizemos com apenas 10 dos nossos 45 associados, mostra que só esses 10 perderam 145 estudos clínicos no ano passado. Ou seja, deixaram de vir para o Brasil 145 pesquisas. Existe uma incompreensão por parte de algumas pessoas sobre quem é prejudicado quando a pesquisa clínica nãovempara o Brasil. Muita gente acha que a indústria perde. A indústria não perde, porque a pesquisa que ela não faz aqui ela vai fazer em outro lugar.Quem perde é médico e paciente.

 

Há ainda uma imagem de que fazer pesquisa clínica é usar a população como cobaia? A que se deve esse tipo de postura?

 

Britto: Eu acho que, como tudo, há diversos fatores presentes nisso. Alguns criam dificuldade por ranço ideológico. Outros, com a intenção que é bonita e correta de proteger os sujeitos de pesquisa. Outros, por puro amor ao poder da burocracia. Nós temos uma mistura disso tudo aqui. O fato é que é preciso discutir: só existe preocupação ética no Brasil? O Brasil é o único país preocupado com isso? A Alemanha, a Suíça, os Estados Unidos não têm preocupações éticas? Se eles têm, estão provando que é possível ser ético sem ser demorado. Eu posso ser ético e ter processos eficientes.

 

O senhor tem pontuado frequentemente que isso não pode ser confundido com redução da seriedade e do controle nos processos.

 

Britto: O que a gente tem discutido muito é que a Interfarma não deseja que haja nenhum tipo de facilidade de ordem ética. Pesquisa clínica é uma coisa muito delicada. Mas é possível tentar, por favor, conciliar a ética com a eficiência. Por exemplo, o Brasil é o único país do mundo onde um estudo clínico tem que passar por três autorizações: Cep, Conep, Anvisa. Por que a Conep tem que revisar tudo o que os Ceps fazem se quem fiscaliza os Ceps é a própria Conep? Hoje, quando alguém quer fazer uma pesquisa sobre um novo medicamento, ela sempre tem que ser feita em diversos países do mundo. Esse alguém dispara o processo de conseguir autorização emdiversos países. Ora, se nove países já responderam e um demorou... O Brasil é hoje um país importante, mas o mundo ainda não espera por nós. O mundo segue sem o Brasil. O que vai acontecer é que aquele medicamento vai acabar sendo vendido para cá, só que os ganhos para os cientistas e para os pacientes vão ficar todos no exterior.

 

Em alguma área há avanço nesse cenário?

 

Britto: Acho que na Anvisa andou bem. Temos que bater palmas.

 

O senhor acha que isso se deve a uma mudança de gestão ou de compreensão das coisas?

 

Britto: Eu acho que o governo sabe que a situação da pesquisa clínica está muito complicada no Brasil. Onde o governo podia fazer sozinho, ele foi lá e fez. No Ministério da Saúde, o governo dependia do Conselho Nacional de Saúde, e o conselho disse não às mudanças. Eu tenho certeza que se o ministro Padilha (ministro da Saúde, Alexandre Padilha) pudesse sozinho tomar a decisão, ele decidiria pela modernidade e não pelo atraso.

 

Há necessidade de romper paradigmas para isso ocorrer? Por isso é tão complexo esse processo?

 

Britto: Esses processos não são mágicos. A geração do novo é sempre complexa. Mas o que a gente tenta alertar é que a busca pela inovação em qualquer área não é uma corrida do Brasil com o Brasil. É uma corrida do Brasil com o mundo. O Brasil melhorou muito, só que outros estão melhorando mais. E o Brasil já tem tamanho e já se desenvolveu o suficiente para passar a se preocupar e a se comparar com os outros.

 

Há exemplos que poderíamos seguir?

 

Britto: Não se trata de querer que o Brasil importe modelos, mas que o Brasil olhe para dentro do Brasil e copie seus próprios modelos corretos. Vou dar três exemplos: Embraer, Embrapa e Petrobras. São empresas que avançaram fortementeem inovação. Se olharmos para o modelo das três vemos uma absoluta integração entre produção de conhecimento e aplicação prática desse conhecimento. No caso da Embraer tem ainda uma outra lição importante: não haveria Embraer sem ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Ali está integrada a geração de conhecimento com a aplicação desse conhecimento. Estão na mesma cidade e ninguém tem vergonha de pesquisar avião numa esquina e fazer avião na outra. Mas quem é o ITA da saúde? Quando vamos ter, em outras áreas, a mesma tranquilidade que a Embrapa teve de se colocar a serviçoda produção agrícola nacional? O Brasil já tem modelos internos. Nós devemos nos preocupar com a Irlanda, com a Coreia, com Cingapura, com a China, mas não precisamos copiálos. Precisamos copiar o que nós mesmos já conseguimos fazer.

 

Na área farmacêutica, quais outros fatores dificultam o desenvolvimento da indústria?

 

Britto: Acho que governo comete um grande acerto e um grande erro nessa questão da política industrial no campo farmacêutico: o acerto é querer ter uma produção nacional. Ninguém merece ser chamado de brasileiro se achar que o Brasil não deve desenvolver e produzir medicamentos aqui. Mas, para dar início à produção farmacêutica, é preciso primeiro montar clusters entre universidades e empresas, desenvolver conhecimento e inovação. A política industrial em favor da inovação farmacêutica não se faz com terrenos ou incentivos em dinheiro. É preciso gerar conhecimento, que gere pesquisas, que gere patentes, etc...

 

A indústria farmacêutica lida com uma situação que é estar na conexão entre a manutenção da ordem capitalista, que requer a geração de lucro, e a de atender a um anseio social, por meio da questão da saúde?

 

Britto: O aspecto mais fascinante de trabalhar com medicamento é que estamos diante de um setor que é tão importante no econômico quanto no social. Não vai se atender ao social se as empresas não forem viáveis, mas, de outra parte, a viabilidade das empresas precisa encontrar respostas à necessidade de acesso por parte das pessoas e dos governos. Essa é a grande questão: como manterum segmento econômico que depende de lucro, mas este lucro não pode passar por cima da necessidade de oferecer respostas à questão de acesso? Não é de graça que o Obama está quebrando a cabeça com essa pergunta, a Europa está com seu sistema de saúde se inviabilizando, o mundo emergente olha para os EUA e não vê a resposta, tampouco na Europa. É uma pergunta em aberto para a humanidade.

 

 

(Fonte: Brasil Econômico - 04/02/2013)

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