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Entrevistas

Rubens Barbosa

04/03/2013 - “Protecionismo isolará indústria nacional”, diz diplomata

As medidas protecionistas do Governo deixam a indústria brasileira cada vez mais isolada. Esse é o alerta de Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp. "São medidas corretas, mas de curto prazo. Daqui 10 ou 15 anos, a indústria vai estar produzindo só para o mercado interno."

Segundo Barbosa, que foi embaixador brasileiro em Washington (1999-2004), o Brasil não se inseriu nas cadeias produtivas globais, que integram indústrias de vários países, e perdeu o bonde dos acordos de comércio.

Os Estados Unidos acabam de anunciar o início das negociações de um acordo comercial com a União Europeia, e já estão negociando com vários países latino-americanos.

O sr. afirma que o Brasil está hoje excluído das cadeias produtivas globais. Por quê?

Rubens Barbosa: Nos últimos 20 anos, o comércio internacional vem se transformando, têm incorporado as chamadas cadeias produtivas globais.

A Embraer é a única empresa brasileira que participa dessas cadeias Ðimportou US$ 2,7 bilhões em 2012 e exportou US$ 4,9 bilhões. No avião produzido aqui, a asa pode vir do Chile, os componentes eletrônicos dos EUA, o trem de pouso de outro País. A lógica é que o País precisa estar integrado em acordos regionais ou bilaterais de comércio, que têm regras não previstas pela OMC.

Que tipo de regras?

Barbosa: Há regras de investimentos, serviços e compras governamentais, que garantem o investimento, a propriedade intelectual, serviços que esses países vão absorver.

Aí há dois problemas para o Brasil. Primeiro, estamos fora desse comércio das cadeias produtivas, que é o mais dinâmico. Segundo, estamos fora da formulação dessas regras. Quando o Brasil, a China e a Rússia, que também estão fora desses acordos, acordarem, as regras estarão todas formuladas e incorporadas nos acordos.

Aí esses países vão querer "multilateralizar" essas regras, ou seja, levá-las para dentro da OMC. E não haverá negociação, o Brasil vai se ver obrigado a aceitar uma série de regras prontas.

Como isso afeta países como China, Brasil, Índia e Rússia?

Barbosa: Pode ser que o mercado interno desses países garanta uma sobrevida para a indústria nacional. Mas não ajuda a indústria a ganhar mercado externo. É o que acontece no Brasil hoje.

Para contrabalançar a perda de competitividade gerada pelo custo Brasil, pelo câmbio e taxa de juros, o que o Governo faz? Toma medidas pontuais, que são boas, mas são insuficientes. Desonera a folha de salários, reduz o preço da energia, cria mecanismo para conteúdo nacional, mas tudo isso são medidas de curto prazo para evitar desindustrialização. Mas isso não permite que o produto industrial fabricado no Brasil ganhe o mercado externo. A exportação de manufaturados caiu 13,6% em dezembro, em relação ao mesmo mês de 2011.

E nós podemos perder exportações destinadas à Europa e Estados Unidos se eles formarem esse acordo comercial, e são mercados muito importantes para a gente.

Mas os EUA e União Europeia já têm tarifas muito baixas para manufaturados. Então o que muda com esse acordo?

Barbosa: Muda porque existem os padrões. Vão dizer que nossos produtos não se encaixam nos "standards" deles; os padrões podem ser usados como barreiras não tarifárias. E no caso de UE-EUA, o acordo é muito importante do ponto de vista geopolítico. Quando os Estados Unidos propõem a Parceria Trans-Pacífico com países da Asean, eles estão excluindo a China, um fato geopolítico.

Quando a União Europeia faz acordo com os EUA e cria uma área que abrange mais de metade do PIB do mundo e metade das exportações, é a mesma coisa. Eles vão ter mais força depois da constituição desse bloco para defender os interesses ocidentais de liberdade de mercado e democracia. Esses acordos têm um componente, de que nós aqui não nos damos conta, que vai muito além do comércio.

A lógica seria o Brasil pelo menos se inserir na cadeia produtiva no Mercosul e na América Latina, não?

Barbosa: Se inserir não, montar uma cadeia produtiva. A China está constituindo uma cadeia produtiva com os países asiáticos. A gente não tem cadeia produtiva nem com a Argentina. A única coisa que se tentou fazer foi no setor automotriz e está dando toda essa confusão. A gente está perdendo essas vantagens de ter tarifas muito baixas com países da região porque o Chile já fez acordo com os EUA, já fez com a China, vai havendo uma erosão da pequena margem de preferência que nós temos. A lógica desse sistema leva o Brasil a produzir para o seu mercado interno e exportar produtos primários.

Ou seja, se, em vez de ficarmos protegendo a indústria, nos inseríssemos em cadeias produtivas globais e ganhássemos escala para exportar...

Barbosa: Hoje, pela lógica desse sistema, a proteção isola o País. Não defende o País. Você fecha o País e não tem condição de se inserir nessas cadeias. O alto protecionismo atrapalha porque o investimento não é feito para produção e exportação, é feito para atender o mercado interno. Os investimentos estrangeiros no Brasil nos últimos seis meses são todos nas áreas de serviços para atender o mercado interno: compra da Amil, drogaria Onofre. Não tem nenhum grande investimento externo para a produção e exportação, porque o País está muito caro e não está inserido nas cadeias produtivas.

E por que não estamos inseridos nessas cadeias?

Barbosa: Estamos isoladíssimos. Só temos três acordos comerciais (Egito, Israel e Palestina). E também estamos isolados pela falta de competitividade, por causa do câmbio e custo Brasil.

Em relação à política comercial, o que o Brasil deveria estar fazendo para ter um posicionamento em relação a todos esses acordos que nos estão deixando isolados?

Barbosa: O Brasil está sem estratégia de negociação comercial externa, porque, nos últimos 12 anos, pôs todas as fichas na Rodada Doha, que fracassou. Nesses últimos anos, segundo dados da OMC, 543 acordos foram negociados e 354 foram notificados como concluídos na OMC. E nós temos só três. Precisaríamos abrir negociações com países mais importantes. Estamos no meio de uma negociação que já dura mais de dez anos com a União Europeia. Há uma perspectiva de negociação com o Canadá. O setor privado sugere que se negocie com a Coreia também.

Mas a Argentina não vai brecar de novo a negociação com a UE?

Barbosa: Se emperrar, nós deveríamos negociar a lista de liberalização de produtos separadamente. Fazer um acordo quadro, vazio, entre Mercosul e UE, mas a negociação de produtos entre cada País e a UE. Se fizermos um acordo, ainda que modesto, com a UE, pelo menos estaremos vinculados a eles quando sair o tratado com os Estados unidos. Porque, se a União Europeia, daqui a quatro anos, assina um acordo com os EUA, os países que foram antigas colônias e têm preferências possivelmente vão ter um status nesse acordo, e isso isola mais ainda o Brasil. O Ministério do Desenvolvimento está reforçando a área de defesa comercial. Em vez de se preocuparem com as negociações externas, estão reforçando a equipe, tomando muito mais medidas protecionistas, com a ideia de proteger a indústria. Mas eles não a protegem, a isolam.

Você é da Fiesp; criticar as medidas de proteção à indústria não é contraditório?

Barbosa: Não estou criticando, são medidas corretas, mas são de curto prazo, não são suficientes. E isolam a indústria brasileira. Daqui a 10 ou 15 anos, a indústria brasileira vai estar produzindo só para o mercado interno.


(Fonte: Folha de S. Paulo - 01/03/2013)

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