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Entrevistas

A política industrial é da década de 60, diz Gustavo Franco

29/04/2013 - "Estamos no pleno emprego, mas não temos crescimento", afirma ex-presidente do Banco Central

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco diz que o grande desafio brasileiro, no momento, é aumentar a produtividade e a competitividade da economia. Sem isso, diz, não será possível melhorar o padrão de vida dos brasileiros.


Para Franco, que comandou o BC entre 1997 e 1999, no governo Fernando Henrique, o Brasil tem um "capitalismo pela metade, não remunera bem a meritocracia, trata mal seus empresários". Filiado ao PSDB, Franco atribui parte da culpa destes problemas aos 10 anos de gestão petista.


"Estamos vivendo a consequência de uma década de descaso em relação ao assunto produtividade e competitividade", diz. "O governo do PT adotou uma atitude hostil com relação a esse assunto até uma certa altura."


As contas externas pioraram, a inflação está alta e há dúvidas sobre o ritmo de crescimento do Brasil. Na avaliação do senhor, a economia brasileira enfrenta desequilíbrios graves ou problemas passageiros?


Gustavo Franco: Não é grave nem passageiro. Mas existe um desequilíbrio. As contas externas sinalizam o que todo mundo sabe: uma economia aquecida, principalmente do ponto de vista do emprego e da renda. O que é paradoxal e, de certa maneira, preocupante, é que o nível do emprego é alto, mas o crescimento está baixo. Essa é a grande característica do problema que estamos vivendo.


Significa que o Brasil bateu no limite do crescimento sem gerar grandes desequilíbrios, como inflação ou rombo nas contas externas?


Franco: O limite quer dizer o seguinte: quando tem pleno emprego, expansão de capacidade na indústria e o País está crescendo pouco, sua economia é pouco produtiva. A grande conclusão é que a produtividade é ruim, o que merece uma longa reflexão sobre as razões de a mão de obra ser tão improdutiva, e o capital tão velho. A consequência de impulsionar essa economia através do aumento de demanda tende a ser ineficaz, produz apenas mais desequilíbrio, como a inflação.


O próximo ano é de eleição e dificilmente o governo vai fazer um ajuste. O senhor acha que será necessário um ajuste em 2015 para corrigir os desequilíbrios?


Franco: Não necessariamente a gente vai criar uma crise. A insistência de injetar mais demanda vai produzir mais inflação e desequilíbrio externo. O desequilíbrio externo também será um problema menor do que já foi no passado, porque a taxa de câmbio pode flutuar para cima e ajudar a resolver o problema. O que será dolorido é, depois das eleições, ter uma inflação de 8%, ou algo perto de 10%. E aí ter de haver uma freada na economia. O problema não é a inflação em si. A questão é a baixa produtividade da economia. Todo mundo está trabalhando, todas as máquinas estão a pleno vapor, mas a economia cresce pouco, porque se produz pouco.


O que o governo teria de fazer para aumentar a produtividade da economia?


Franco: O que está errado é que o Brasil tem um capitalismo pela metade, não remunera bem a meritocracia, trata mal os seus empresários. Hoje, estamos vivendo a consequência de uma década de descaso com relação ao assunto produtividade e competitividade. Ele foi erroneamente identificado como 'assuntos neoliberais ou de tucanos'. O governo do PT adotou uma atitude hostil com relação a esse assunto até uma certa altura.


O que dá para fazer agora, levando em conta que o governo já mexeu no câmbio, desonerou a indústria, reduziu os juros e cortou a tarifa de luz?


Franco: Eu tenho muitas dúvidas sobre a eficácia de tudo isso. Não vejo muito mérito na desoneração porque ela é muito mais uma mudança da base tributária do que propriamente uma redução de impostos. É uma redução meio errada, incentiva o uso de mais trabalho quando já tem uma economia em pleno emprego. A experiência internacional também não favorece a ideia de atuação seletiva do Estado. Portanto, nada funcionou em matéria de política de promoção da produtividade e da competitividade. No caso da energia elétrica, dá até para dizer que São Pedro não ajudou. Por mais atrapalhada que tenha sido a medida do setor elétrico, traria redução do custo de energia. Agora, diante da falta de chuva, a medida teve pouco ou nenhum impacto na competitividade brasileira. O assunto de logística também é um pesadelo e decorre de vários anos em que ficou relegado ao segundo plano. Faz 10 anos que o governo do PT está aí e não fez nada de muito relevante nessa área.


Em relação à indústria, o setor tem pedido mais câmbio. Tem algo que o governo pode fazer para ajudar?


Franco: Deveria existir uma postura diferente, começando pelo modo como a indústria brasileira se interliga com o mundo. O Brasil é uma economia muito fechada. Durante um bom momento, na administração tucana, estávamos andando numa direção de abertura, de competição, exposição da indústria local à competição da indústria externa para o benefício do consumidor. Agora, é totalmente diferente. Nos últimos 10 anos, houve reversão dessas posturas. Temos mais protecionismo. Estamos com um modelo dos anos 60 de fazer política industrial e vamos retroceder a indústria ao que era nos anos 60.


Há um debate sobre como resolver o dilema entre inflação e crescimento. O ex-ministro Delfim Neto disse que medidas mais ortodoxas podem tirar as conquistas da classe C, o 'sabonete Dove consumido pela empregada doméstica'. Outros economistas afirmam que é inevitável provocar algum desemprego para ajustar a economia. Qual a sua opinião?


Franco: Houve uma malícia política muito clara em colocar qualquer coisa que não seja gastar dinheiro público como sendo hostil aos interesses do povo. Ou seja, na visão do ministro Delfim, os economistas ortodoxos são inimigos do povo e os outros são os amigos. Claro que é uma bestificação, está equivocado. Isso agrada aos ouvidos da liderança política do governo, dos governadores, que vão receber mais dinheiro do governo federal, e da base governista. O que o ministro Delfim faz é articular o discurso da gastança, da irresponsabilidade fiscal. É o mesmo discurso, quando lá atrás se combatia a hiperinflação. Gente como ele dizia que 'a ortodoxia vai conduzir o Brasil ao buraco'. Foi exatamente o contrário.


Este ano, o governo reduziu ainda mais o superávit. Qual a consequência dessa política fiscal?


Franco: Acho isso totalmente equivocado. É uma medida na direção errada, que acrescenta a sensação de precariedade das contas públicas numa economia que não precisa mais de demanda agregada, sobretudo vindo do governo. Precisamos fazer coisas pelo lado da oferta.


Qual o tamanho da alta do juro necessária para combater a inflação?


Franco: Depende muito do regime da política econômica geral. Se houver ajuste fiscal, políticas de produtividade para o setor privado, isso pode injetar confiança na economia e o BC poderá lidar com o problema da inflação com menos antitérmico, menos juros do que numa situação de falta de confiança e de descontrole das políticas públicas. Eu insisto que o juro não é a torneira que você abre ou fecha. Há coisas melhores que atacam mais diretamente o problema da inflação. É melhor tratar usando política fiscal e ações mais fundamentalistas do que deixar o Banco Central carregando o piano. Quando nada mais resolve, são os juros que têm de trabalhar. Portanto, não dá para dizer a priori qual tem de ser o aumento de juro ou mesmo se vai precisar.


Como acha que o governo deve reagir à política dos países ricos, de injetar trilhões de dólares para reanimar a economia? Existe uma guerra cambial, como descrito pelo ministro Mantega?


Franco: A ideia de que existe uma guerra ou uma hostilidade para nós é absolutamente tola. Ou seja, os americanos, japoneses e europeus tiveram políticas monetárias extremamente agressivas para evitar o que seria uma outra grande depressão. E aí, estamos reclamando disso? A situação que se observa para nós é de uma coisa boa, de acentuar uma tendência de acumulação de reservas. O Brasil viveu durante anos um regime de escassez de divisas. Toda a nossa cultura de lidar com o setor externo, seja do ângulo comercial, de restrições cambiais e do controle de capitais era sempre no sentido de lidar com a escassez. As pessoas que estão no governo são formadas nessa época. A abundância de divisas é um assunto completamente novo. E, talvez, as autoridades não compreendam bem e podem achar que é uma medida hostil em relação ao Brasil. É exatamente o contrário. Oferece uma oportunidade extraordinária, mas estamos perdendo por não entender bem o que está passando.


O cenário externo vai ser benéfico ou vai ser prejudicial à recuperação da economia brasileira?


Franco: O cenário externo ainda inspira certo cuidado. Houve progresso, mas ainda é uma via cheia de buracos no caminho. O que está acontecendo no Japão é uma excelente notícia - quem sabe o país consiga se tornar de novo o polo mais dinâmico da economia internacional. E não se tem a indicação de um pouso forçado na China. A economia americana também se recupera devagar. Este ano, portanto, tem um jeitão de ser melhor do que o ano passado.


O senhor está participando da campanha do senador Aécio Neves (PSDB-MG) ou pretende participar?


Franco: Eu não estou participando. Em princípio, eu não pretendo. Eu sou ligado ao partido e estou à disposição para colaborar se for de interesse. Nada mais do que isso.


O que os economistas críticos a esse governo têm a oferecer como plataforma de campanha alternativa?


Franco: Não é preciso ser alternativo. Emprego e renda são objetivos importantes de qualquer governante, de qualquer boa política econômica. O problema que se coloca agora, para o futuro, é que estamos no pleno emprego, mas não temos crescimento. O desafio é elevar a renda de forma consistente com o aumento da produtividade. É esse o grande problema que espero que a eleição articule e consiga trazer esse debate para a população.



(Fonte: O Estado de S. Paulo - 28/04/2013)

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