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Fármacos e Medicamentos

Notícias

Estamos perto da cura do zika, diz cientista da Califórnia

O verão chegou e, com ele, a época de chuvas. Passado o surto do zika vírus e os casos correlatos de microcefalia no Brasil, pouco se ouve falar nos estudos científicos que ainda tentam encontrar uma solução que vá além de evitar água parada e uso constante de repelentes. Mas há quem siga nessa batalha.

 

O cientista brasileiro Alysson Muotri, que comanda o laboratório de neurociência na Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, e é cofundador da startup brasileira de biotecnologia TISMOO, é um deles.

 

Depois de publicar um estudo na revista Nature, detalhando os efeitos do zika no cérebro e descrevendo o caminho da infecção até os casos de microcefalia congênita, Muotri prepara agora novo estudo, em fase final de testes, que pode encontrar uma forma de imunização 100% eficaz contra o vírus, por meio de medicamento contra malária, já aprovado por órgãos regulatórios.

 

O pesquisador falou a EXAME sobre os avanços das pesquisas, e sobre o atraso do Brasil na área.

 

Como o senhor começou a estudar o zika? Foi depois do surto que houve recentemente?

 

Eu trabalhava com os mini cérebros humanos, fabricados para estudo de neurociência a partir de células-tronco.

 

Como brasileiro, sempre acompanhei o passo a passo do surto e as pesquisas do zika no país pelo noticiário.

 

Tive a ideia então de usar a tecnologia que temos com células-tronco para recriar um modelo de mini cérebros e testar se o zika tinha efeito causal no desenvolvimento da microcefalia em fetos.

 

Era algo que, até então, ninguém havia provado a relação de causa e consequência. Ainda havia suspeita de que pudesse ser efeito do uso de agrotóxicos nas regiões afetadas. Não era uma correlação clara.

 

Pegamos amostras do vírus com uma colaboradora no Brasil e testamos nos mini cérebros. Vimos que o efeito foi dramático.

 

O vírus era muito agressivo, algo que eu jamais tinha visto em todos esses anos trabalhando. A partir daí, começamos a desenvolver uma pesquisa que culminou com o artigo na revista Nature mostrando justamente essa relação e experimentos com animais.

 

Foi possível observar como o vírus consegue atravessar a placenta, atravessar a membrana hematoencefálica do feto e atinge o cérebro, causando os efeitos de microcefalia. Conseguimos a prova definitiva desse trajeto.

 

A pesquisa avançou desde então?

 

Estamos trabalhando agora, novamente usando esses mini cérebros, no teste de drogas para doenças neurológicas, como autismo, em uma plataforma protetiva ou curativa do efeito do zika.

 

Temos uma série de mini cérebros, milhares deles, e, para cada um, usamos um pouquinho do vírus da zika para infectá-los e fazer o tratamento com a medicação.

 

Separadamente, estamos testando algumas drogas antes da infecção para avaliar a capacidade protetiva, efeito parecido com uma vacina.

 

Descobrimos uma série de drogas que conseguiram bloquear o efeito do vírus nas células nervosas. Uma delas é a cloroquina, que é uma droga hoje usada contra a malária. É um trabalho deve ser publicado em breve, pois estamos em fase de testes com animais.

 

Essa solução poderá ser usada em breve?

 

Como são substâncias aprovada e testadas, inclusive em mulheres grávidas, não imaginamos que vá ter algum problema.

 

A única questão é que esse experimento em específico nunca foi testado em ensaio clínico controlado para o zika. É o que estamos fazendo agora.

 

Temos um colaborador no Equador em que está trabalhando em uma série de infecções que devem acontecer com a chegada do verão. Queremos aproveitar essa população que está sensível para testar o efeito dessa droga em definitivo.

 

Se der certo, qual a porcentagem de casos que devem ser evitados de problemas por conta do zika?

Baseado no modelo animal, que foram os experimentos com camundongos que fizemos até agora, o tratamento com a cloroquina demora uma semana para que se espalhe no corpo e passe a prevenir a entrada o vírus.

 

Se nos testes com humanos o mecanismo não for diferente, imaginamos que a população imunizada teria 100% de proteção.

 

Há uma série de diferenças no metabolismo do camundongo e do humano, inclusive na resposta às drogas, e a dose tem que ser ajustada. Mas estamos confiantes. Se soubéssemos disso antes, todos os casos de microcefalia poderiam ter sido evitados.

 

Corremos o risco de um novo surto?

Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares. Vemos redução dos casos, pois sabemos dos efeitos que o vírus causa e estamos alertas na prevenção paliativa.

 

Querendo ou não, o brasileiro está mais atento com água parada, tem ajudado muito passar repelente, entre outros métodos. Isso já reduz bastante.

 

Mas o grande desafio de doenças virais é que estão em constante evolução, podendo também estar se adaptando ao combate que desenvolvemos.

 

Há um trabalho de um grupo chinês que mostra que vírus brasileiro da zika é uma mutação resistente daquele que veio da África.

 

É diferente geneticamente e consegue se replicar mais facilmente em ambiente da população humana. Então, pode haver uma nova mutação que não sabemos de onde vai aparecer. Foi o que aconteceu há algum tempo com o surto de ebola, que surgiu uma nova variação, ainda mais dramática.

 

O arrefecimento do surto causou fuga de verbas para pesquisa?

Com certeza. Aqui nos Estados Unidos, pegamos a transição do governo Barack Obama, que havia sido liberado uma verba para os estudos do zika, e Donald Trump, que enxugou o recurso.

 

Quando o risco parece que está sob controle, as verbas diminuem e vão para outras prioridades. É um erro porque é importante estar preparado para o próximo surto. No Brasil, os cortes foram ainda mais intensos por conta da crise econômica.

 

A ação das autoridades deve se limitar a liberação de verbas ou poderia ter sido feito mais?

Sempre se pode fazer mais. No campo da ciência, o Brasil não tem um histórico forte de colaboração internacional. Meu laboratório na Califórnia se aliou a um da USP, outros fizeram colaborações, mas tudo partiu de uma iniciativa dos próprios pesquisadores.

 

Onde eu trabalho, formou-se um estudo de excelência para estudo zika. Adoraríamos trabalhar mais com o Brasil e o governo teria papel fundamental nesse intercâmbio.

 

Por que estou fazendo um ensaio clínico no Equador? Gostaria de estar fazendo no Brasil. Não há interesse dos governantes com a pesquisa.

 

Uma pesquisa como o senhor fez nos Estados Unidos poderia ter sido feita aqui?

 

Não. Do ponto de vista de nível de recurso e sofisticação de laboratório, não há nenhum centro de pesquisa no Brasil que dispõe de coisa parecida. Não vejo isso acontecendo tão cedo.

 

É triste pensar que a ideia de tratamento pela perspectiva das células-tronco é um belo exemplo de ciência básica aplicada para uma questão de emergência, que o Brasil não consegue fazer.

 

A gente conseguiu chegar nesse ponto, de fazer esse experimento com drogas e descobrir medicamentos para uma prova causal, por ter uma tecnologia de células-tronco que está pronta para atender a questão.

 

Existem vários outros vírus e bactérias que afetam o corpo humano que podemos usar essas tecnologias para descobrir coisas fundamentais sobre a saúde humana.

 

 

 

(Fonte: Exame – 04/01/2017)

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