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Políticas Públicas e Economia

Notícias - Políticas Públicas e Economia

País precisa aproveitar o atual “momento de graça”

Especialista em política industrial e estudioso da economia chinesa, o professor-doutor do Instituto de Economia da UFRJ, ex-presidente e ex-diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), diz que frente aos "preços arrasadores" chineses, há três tipos de países: "Os que inegavelmente têm problemas de câmbio dentre os quais o Brasil se destaca como caso grave; os que têm problemas de câmbio; e os que não têm problemas de câmbio".

"Parece banal a classificação?", indaga, para em seguida dizer que há um sentido forte: "Todos os países estão se esvaziando industrialmente, o que relativiza a ideia do câmbio. Esse fato torna-se ainda mais contundente nos últimos dois anos, à medida que os países desenvolvidos, exauridos do ponto de vista fiscal e presos na armadilha da liquidez, simplesmente vêm se despedindo do crescimento como perspectiva para os próximos anos e buscam desesperadamente exportar", afirma.

Castro esteve há dois meses na 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, em Brasília. Viu uma efervescência entre pesquisadores, com propostas ricas e inovadoras, deixando evidente que o País vem acumulando forças para "um possível desejado ingresso na economia do conhecimento". Mas, ao mesmo tempo ele, e outros, saíram de lá pouco entusiasmados.

"Acho que a inovação, a busca do futuro, não é do interesse das empresas", afirma. "Muitos industriais brasileiros intuem que se fizerem inovações, muito bem". Porém, ressalta, "resta saber se a China não está fazendo mais inovações ainda". Cita a Rainha de Copas, personagem de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll quando diz que "é preciso correr, mas correr mais rápido do que os outros".

Castro lembra que, em paralelo, o Brasil vive um momento inédito. Os recursos financeiros para projetos de inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia saltaram de US$ 600 milhões para US$ 2 bilhões em uma década. Cerca de 60% dos gastos com pesquisa na América Latina acontecem no Brasil. "Mas os resultados são bastante modestos, medíocres. Falta estratégia. Há dispersão de recursos. Está-se atirando em todas as direções", afirma.

Castro ressalta que o problema chinês tem contrapartida. Do ponto de vista da pauta tradicional de produtos brasileiros exportáveis, será ainda por muitos anos um voraz consumidor. "A China instaurou a escassez no que toca às matérias-primas, o que vai se espelhar em preços que passam a oscilar num canal superior, muito acima do passado. Esse deslocamento veio para ficar porque é fruto do tsunami da urbanização chinesa que está praticamente ainda na metade".

A China, de acordo com Castro, continuará com uma forte demanda nos próximos quinze a vinte anos, garantindo oportunidades para os países que oferecerem recursos naturais. O Brasil entra aí com um lugar de honra e começa a ser visto como a "cornucópia do mundo".

O professor destaca que "as notícias positivas no tocante a óleo e gás não param de surgir nesse País". Lembra que, em 2008, previa-se a extração de 150 mil barris de petróleo do pré-sal a partir de 2015. Agora, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) subiu a previsão para 2 milhões de barris. "Da maneira que está acelerando-se o potencial no caso do pré-sal, nós, se tivermos um mínimo de juízo, não vamos ter problemas de espécie alguma durante uns quinze a vinte anos".

Para Castro, o "período de graça" é para amadurecer novas alternativas. "O modelo só será substituído efetivamente lá adiante, mas vamos começar a construir a sua saída desde agora. Ele relaciona três caminhos básicos a serem seguidos. Um deles é "explorar os recursos, não apenas do óleo como os demais recursos naturais, que saltaram para o primeiro plano e foram imensamente valorizados, essa é a linha passiva de mera acomodação e que pode ter resultados a curto prazo, mas dificuldades crescentes pela frente num futuro não distante."

A segunda via que caracteriza como mais pró ativa é a de tomar carona e procurar estender o impulso às importações de primários para trás e para frente buscando o chamado adensamento das cadeias. "Na realidade esse segundo caminho nada mais é que uma tentativa de redução do projeto de substituição de importações agora tomando carona nas exportações de primários. Seria algo como substituição de importações na margem, ou seja ao longo do crescimento exportador. Essa via multiplica problemas na medida em que significa aumentar a presença e o peso relativo de indústrias e segmentos nos quais nós não temos vantagens enraizadas permanentes mas apenas transitórias (o efeito carona)", explica.

"Acontece que, ao mesmo tempo, a produtividade e avanço tecnológico só fazem crescer na China e outros pontos da Ásia nestes mesmos campos. Então, ao levar a fundo essa opção nós estamos difundindo a estabilidade do petróleo e nos comprometendo com indústrias e com um tipo de crescimento de perspectivas mais duvidosas. Significa não buscar sequer uma identidade própria do ponto de vista industrial e tecnológico", afirma.

Para Castro a terceira via é a de "rasgar a fronteira própria, ao invés de fazer cadeia do tradicional, colocar um sabor brasileiro, cor local brasileira, com adequação às especificidades brasileiras. De forma que ao fazer política industrial tecnológica não só se reforce a competitividade, mas também se abra novos espaços". Cita como exemplos as áreas de controle remoto, a indústria de automação, de novos materiais satélites, monitoramento para controle de vazamentos, nanotecnologia e muitas outras iniciativas que têm duas características: significa o desdobramento em novas direções do esforço de apropriação e uso dos recursos naturais brasileiros e, em segundo lugar, venham a ser soluções de grande capacidade de transferência, ou seja, servem para um número crescente de outros setores, por exemplo, equipamentos em campos diferentes, duráveis em geral e uma série de oportunidades de fronteira nas mais variadas atividades".

Ele chama atenção para o fato de que esse tipo de política industrial e tecnológica - que aponta como terceira via - não é inédito no mundo: "Notoriamente os Estados Unidos têm explorado essa via com enorme êxito com programas como o da ida à Lua, corrida espacial, a internet. São todos programas nos quais ao invés de proteger o existente, colocam mais elos na cadeia. O País se lançou em programas que prometem uma grande fecundidade e versatilidade dos seus frutos que vão se desdobrando à medida que progridem as inovações e novas respostas são ensaiadas. Não controla com precisão o resultado, mas abre fronteiras próprias", afirma.

Para o professor, o cenário que se desenha para um período que prevê para os próximos quinze anos é o desejável para "o País assimilar e dominar várias tecnologias para alcançar infraestrutura mais adequada, investir em educação, reforçar o treinamento numa nova direção, realizando processos conjugados e convergentes", afirma. "É o período de graça que o mundo e a China estão nos dando", diz.


(Fonte: Valor Econômico - 17/12/2010)

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